sábado, 17 de julho de 2010

Ida ao Zoo

Fui ao Jardim Zoológico de Lisboa, local que não visitava faz muitos anos. Gostei de lá ter passado o dia mas não deixo de necessitar de mencionar algumas das impressões com que fiquei.

1º- Tudo é muito comercial. Merchandising. Toda e qualquer oportunidade que têm para fazer diinheiro é aproveitada. Por exemplo: Na baía dos Golfinhos o espectáculo em si só começa depois de uma série de actividades que têm como propósito divulgar a marca Olá. A música é da Olá, menciona a Olá, os produtos da Olá e até aparecem as três mascotes da Olá a passear entre o público. O logotipo da Olá está por toda a parte, sendo o local mais surpreendente o peito dos  treinadores, que o exibem nos fatos de mergulho. De resto, nas bancadas, no toldo, nas bolas penduradas por cima da baia... será que também patrocinam o logotipo nas cuecas? 

2º- Na Baía dos Golfinhos os animais trabalham arduamente. Não são só os cinco espectáculos por dia que o comprovam. É o que têm de fazer antes e depois destes terminarem. Diria até que o espectáculo só começa depois dos Leões Marinhos irem até o público e, de rosto em rosto, aproximarem os bigodes dos narizes alheios. Tudo acontece muito rapidamente mas nenhum movimento fica por fotografar. E, é claro, à saída as pessoas fotografadas são chamadas para comprarem a foto. Quando digo à saída, não me refiro ao local da Baía dos Golfinhos! Refiro-me à saída do Zoológico... mesmo que horas depois, uns tantos jovens encarregues de reconhecer os trauseundes fotografados, chamam-os energeticamente para lhes vender a imagem. Contudo, a oportunidade de negócio não é desperdiçada e, à saída da Baía dos Golfinhos somos novamente informados que podemos tirar uma fotografia ao lado do leão marinho no final do espectáculo. Por essa altura já ia no teleférico e bem que vi a quantidade impressionante de pessoas em fila a aguardar a vez de tirar a foto.

3º - Quis evitar mas, um dia inteiro no Zoo a beber água e sumos e não ir ao WC é uma capacidade que se vai perdendo à medida que se avança nos anos. Assim sendo, procurei uma casa de banho para poder esvaziar a bexiga. Antes de entrar disse para quem me acompanhava que esperava que não cheirasse mal. Terminada de dizer estas palavras, um odor terrível ataca-me as narinas. Como resposta ao nauseabundo cheiro virei-lhe as costas, barafustando surpreendida pelo facto e convicta que aguentaria mais um dia se necessário fosse mas ali, não ia de certeza. Nem os animais que visitávamos deixam um cheiro assim para trás. Onde ficaria a casa de banho dos macacos?

Achamos que alguém que trabalha no Zoo tem o ingrato trabalho de limpar a porcaria dos animais... mas, tenho cá para mim que se sentem realmente mal é por ter de limpar a nossa!

Contudo, não deixa de ser um dia bem passado. Gostei especialmente de observar os animais de grande porte - aqueles que têm maiores parecenças com os extintos dinossauros. Os rinocerontes brancos, os pretos, os elefantes, os hipopótamos, os crocodilos... Em especial aquele que estava separado de mim apenas por um vidro durante o tempo em que estive a alimentar-me no MacDonalds com um MacChiken. Será que ia virar presa caso aquele vidro cedesse e o crocodilo ficasse solto entre aquela multidão de gente a devorar hamburgueres? Há algo de invertido nesta relação e nos papéis que cada qual tem na cadeia alimentar. Quem observava quem?

Adorei ter visto camelos. Julgava que o Zoológico não os tinha mas parecia que o espaço estava em obras para os acolher. Vi a cria a erguer-se do chão com a mãe a apressar-se a sair da sombra da casota para a auxiliar. Também adorei os macacos. Toda aquela alma que emanam quando se olha nos seus olhos e quando se observam os seus gestos tão humanóides e com os quais conseguimos nos identificar. As mães fêmeas a transportar as crias agarradas ás tetas, a trepar por troncos como se nada fosse, crias pelas costas, pelo peito... a removerem os parasitas no pêlo uns dos outros, puxarem-se entre si... uma ternura.

As condições de acesso às atracções do Zoo mudaram. Por 16.50 € um adulto pode passar o dia no Zoo, ir ver o espectáculo da Baía dos Golfinhos, os répteis e andar de teleférico as vezes que quiser que o custo destas actividades já está contemplado no ingresso. A única coisa que se paga no interior é o comboio. Por 1 €, fica-se numa fila imensa para depois constatar que não existem lugares suficientes e ir embora. Mais vale andar de teleférico que, além de melhor, está incluído no preço do bilhete. Não sei se é por total desconhecimento disto que o este esteve  quase sempre vazio. Foi uma delícia! Acho que, com medo de terem de pagar, as pessoas nem se aproximaram. Ouvi uns indivíduos que passavam no teleférico a gritar para outros que estavam em terra para irem apanhá-lo, porque era grátis! Essa palavra incomodou-me e dei por mim a sussurrar «Não é grátis. Está incluído no preço do bilhete!». A minha indignação provou-se adequada pois a palavra por si só gerou quase o histerismo e o grupo de pessoas apeadas começou a correr apressadamente rua abaixo, como se não pudessem perder tempo e tivessem de chegar em primeiro lugar ou ocorreria uma tragédia.

Lamento o desaparecimento de algo que já era um ícone do Zoológico: o sino dos elefantes. Causou-me uma certa nostalgia recordar que, naquele lugar a tromba do elefante encontrava a minha mão e, em troca de moedas, tocava o sino. Caso não fossem moedas e fossem, por exemplo, amendoins, não havia o som do sino para ninguém. Mas compreendo que esta condição tenha terminado. Quando se tem leões marinhos que trabalham tão arduamente e tiram-se fotografias a 5€ a unidade, quem precisa de ir "raspar" do fosso(?) os singelos trocos que a tromba do elefante recolhia? Mereciam uma justa homenagem.

Outra coisa que estranhei foram os ursos - que podia jurar não serem os mesmos que lá encontrei 10 anos antes. Esses, apelidei-os de "ursos de circo reformados", pois ficavam de pé e batiam com as patas para receber em troca comida. Pareciam muito domesticados, como se fazer aquilo tivesse sido toda a existência que conheceram. Os que lá encontrei contudo, em nada fizeram-me lembrar os do circo. Talvez as obras sofridas no seu habitat tenham contribuído para tal sensação.

O cemitério dos animais... não vi! Ainda existe???

Também não vi o urso polar. Devo dizer que fico contente com isso. Da última vez que fui ao Zoo dois ou três ursos polares coabitavam num espaço minúsculo, sobre um sol escaldante e num cubículo que parecia produzir uma temperatura baixa muito insatisfatória para as necessidades do animal. A sua ausência é por isso bem vinda. Se destino igual tivessem os pinguíns, também não lhes faria mal algum. Como pode um animal destes estar sobre o sol, resguardado numa sombra, apenas salpicado por constantes espirros de água? Foi assim que os encontrei hoje.

Continuo a achar o Zoológico pequeno. Surpreendentemente pequeno mas com uma variedade de animais que o fazem parecer grande. Contudo, percorre-se a pé num ápice e com toda a facilidade. Tudo está próximo de tudo, causando a sensação de se estar num espaço pequeno. De facto é... e é também uma jóia de Lisboa, esta magnífica cidade que, como nenhuma outra, consegue ser cosmopolita e ter um pezinho na natureza selvagem, na cultura, na arte e dar tudo, fácil, fácil aos seus habitantes... sem demoradas deslocações!

Grande Cidade!

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