Não tenho automóvel. Isso nunca me incomodou até ter começado a trabalhar num lugar onde não existe coisa alguma e, o que há, fica a 1 km. Há hora do almoço, qualquer café ou restaurante está a essa distância, numa subida íngreme em qualquer direcção que se tome. No Inverno, fazer um kilómetro a pé com chuva não é fácil, não por causa da quantidade de água que cai do céu, mas por aquela que fica no chão. Pés enxutos é um mito. Poças enormes têm de ser contornadas, ao mesmo tempo que se tem de evitar os jactos de espirros de água causados pela passagem de veículos.
Com o tempo fui percebendo um outro fenómeno ainda mais interessante. A pessoa que não tem carro é descriminada como se fosse deficiente, sem mãos ou pés. Colegas que te vejam num aperto, são incapazes de se oferecer para te levar até á paragem dos transportes. O chefe que te pediu para ficares mais de duas horas mais tarde a trabalhar intensamente, é incapaz de te dar boleia, mesmo que seja de noite e esteja a chover. O comodismo do carro é assim mesmo. Dá preguiça sair da cadeira para o volante e, ás vezes, ter de voltar para trás. Compreendo isto. O que me custa mais a aceitar (não a compreender) é que isso implique discriminação a quase todos os níveis.
A primeira descriminação que notei, foi ser excluida do "convite" para ir almoçar. Aqueles que têm carro e menos gostam de conduzir ou de gastar dinheiro em gasolina, esperam sempre que outros com carro queiram sair, para ver se podem ir de boleia. Assim, não tendo eu carro, não era a mim que vinham perguntar se queria ir almoçar com eles.
Depois vêm os convites para passeios ou os convívios da praxe. Não tenho carro, pelo que comecei a ouvir contar histórias de idas ao café após o expediente, ou uma saída às compras, etc, sem que me tivesse chegado aos ouvidos esses planos de convívio. Mas o pior, foi no Natal quando decidiram fazer o jantar numa localidade onde não tinha como chegar e de onde não tinha como sair de transportes públicos.
Convenceram-me que "alguém" me daria boleia mas, em concreto, ninguém deu um passo à frente. Combinaram todos de se encontrarem na empresa para depois seguirem para o jantar mas, nessa noite, ninguém apareceu. Os colegas que estavam na empresa têm carro e convenceram-me, mais uma vez, que "alguém" daria-me boleia. Uma colega disse-me que uma outra ia levar o carro porque queria sair mais cedo do jantar e que eu iria com ela. Fiquei mais sossegada. Finalmente o "alguém" ia sair do anonimato! Fiquei a aguardar. Esperei, esperei e quando chegou a hora do jantar, os três colegas sairam porta fora sem me dizerem uma palavra.
Fui atrás deles e percebi que iam-se pirar sem me passar cartão. A tal colega que ia levar carro já se estava a enfiar na boleia de outro e este grupo em particular, há muito que se tinha excluído dos restantes, fazendo um "grupinho" próprio que ia almolçar sozinho sem avisar os outros.
Não ter automóvel dá direito a isto. A ser descriminada de muitas formas e feitios. Mas ai de mim se decidir, por acaso, chamar a atenção para o facto porque, quem tem carro, a maior parte das vezes não se apercebe dessa descriminação. Ou, a maior parte das vezes, finge que não percebe. Ou teme que "aquela pessoa" que não tem carro venha sempre abordá-lo para ter boleias e isso é irritante. E assim, cá estou, a reflectir na vida...
Uma ida ao médico fez-me passear pelas ruas da Lisboa antiga - a zona do Chiado, da Baixa, dos Restauradores e do Rossio. Vi muitos sem-abrigo e idosos a pedir esmola. Percebi que alguns nem recebem um olhar. Nem um contacto visual é estabelecido, como se a pobreza fosse contagiosa. Uma senhora idosa decerto com mais de 80 anos agitou um copo em direcção a alguém, que nem se dignou a olhar. Ser ignorado é mau, ter em cima disso a terceira idade e a pobreza, é desumano! Quis conversar com aquela senhora, saber se tem onde dormir, casa para estar e se pede esmola para comer ou comprar medicamentos. Mas também lhe passei à frente, dizendo a mim mesma que, voltando a passar por ali, lhe deixaria uma moeda. Lisboa inteira está cheia de indivíduos a pedir esmola. Uns notando-se nem serem portugueses. Chegam sabe-se lá como aqui ao país e acabam assim... importamos a pobreza, além de a gerar-mos. As moedas que tinha comigo e que recusei gastar em comida comigo mesma, acabei por dá-las a outra idosa que agitou o seu copo com moedas com mais vigor. Estava sentada no chão de umas escadarias perto da Calçada do Duque e da estação de comboios do Rossio. Mais adiante, nos restauradores, um sem-abrigo veste-se todo com sacos plásticos pretos. Muitos, muitos mesmo, habitam ao redor do Teatro D. Maria. Mas quem vai ao teatro para se abstrair da realidade, se tiver de se deparar com o seu lado mais duro mesmo ali a seus pés?
Ter um automóvel dá mais status. Permite que os outros olhem para ti com mais respeito. Passas a ser convidada para ir a mais lugares, para fazer viagens, para dividir despesas de gasolina. Quando não tens este "status" é um pouco como ser aquela pessoa sem-abrigo... descriminada por não pertencer ao grupo daqueles que conduzem, mas igualmente descriminada.
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