Quero começar por dizer que entendo o conceito de praxe. Mas duvido que algum dos nossos jovens universitários que praticam esses rituais estejam capacitados para executar uma praxe. Da forma como entendo o que a praxe é, julgo até que é coisa extinta do meio académico. A praxe como "complemento de inserção" à vida académica, como uma confraternidade e aprendizado que fortalece e ilumina ou como «desanuvio» da pressão da demanda exigente dos estudos É UTOPIA. Não existe mais.
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| Imagem retirada daqui |
O que acho que se passa actualmente por estas universidades a fora são rituais de abuso e humilhação iguais a tantos outros que se observam cada vez que se criam grupos. Gangs também têm rituais de iniciação. No presídio os detidos também passam por rituais de agressão e bulling. Ou seja, não é esse o caminho que o estudante universitário devia reproduzir. A praxe para continuar a existir e fazer sentido, honrando as "calças herdadas" devia remeter a tempos idos, ao início de Coimbra talvez... a tempos que simplesmente já não voltam mais e são impossíveis de reproduzir porque a sociedade actual é muito diferente daquela a que deu início a estes rituais. O jovem de hoje não é o mesmo de antes. Não tem o mesmo preparo, a mesma mentalidade, nem as mesmas experiências de vida ou expectativas. São contextos e mentalidades sociais, morais e familiares totalmente dispares.
Actualmente quem são a maioria destes jovens que praxam? Rapazes e raparigas que muito provavelmente tudo o que fizeram da vida foi estudar. Poucas responsabilidades. Muita diversão. Provavelmente recorrem à carteira dos pais para terem dinheiro para toda a espécie de gastos. Ainda não experimentaram um emprego em full-time e as respectivas vicissitudes. São jovens que se metem nestes rituais pressupondo que a eles têm direito e que deles ninguém tem legitimidade de os privar. Porque a sua vida social não tem "piada" se não se inserirem num grupo.
É que a vida académica vivida em pleno é ainda mais dispendiosa que os custos relacionados apenas com os estudos e o aprendizado dos livros. Para se ser um estudante da Tuna, da associação, da comissão de praxe, seja o que for, é preciso investir MUITO dinheiro. Nenhum estudante que anda trajado fica barato aos pais que em princípio os sustentam. O traje é caro, é um fato que dos pés à cabeça só pode ser conforme manda a tradição. Sem dúvida alguma é uma despesa que vai sobrecarregar bastante as bolsas de quem já tem tantas outras consequentes despesas a pagar, como as propinas, os livros, etc. Para o caso dos estudantes que entram em escolas publicas e foram colocados fora da cidade, torna-se um gasto muito mais incómodo. Além das rendas dos quartos, da alimentação, das propinas, das despesas de deslocação e outras tantas varáveis, dar uns 200 euros ou mais por um traje, comprar não sei quantas camisas de muda, não sei quantas meias, sapatos, capa (um balúrdio) e tudo o mais... para pais que vivem em apertos pode mesmo ser de uma brutalidade descomunal. Mas alguns (digo alguns) estudantes talvez não sejam capazes de entender isto porque chegaram à vida académica e se julgam no DIREITO de viver tudo isto sendo que para eles é praticamente uma obrigação parental sustentarem os custos que viver tal sonho acarreta.
Tudo isto que relato vem em consequência do trágico acidente na praia do Meco, em que SEIS estudantes trajados foram engolidos pelo mar, naquele que foi apenas mais um de muitos «rituais» da praxe académica. Estudantes de uma Universidade Privada, nas quais geralmente para se ser admitido basta se estar disposto a pagar. Alugaram uma vivenda para passar o fim-de-semana a executar praxes. De noite deram continuidade às mesmas no areal do mar invernal de Dezembro. Morreram todos vestidos a rigor - o último fato que vestiram em vida e que levaram para a morte, como uma esfarrapada mortalha negra.
Volto a repetir aquilo que disse no início do texto: compreendo a praxe académica. Mas discordo daquilo que percebo que é realizado por estas universidades a fora. Se o objectivo é fortalecer expondo os pontos fortes e fracos e criar laços de união entre todos, acho desnecessário que seja através da humilhação, da ofensa, do esforço físico desumano e dos abusos que se tenha de ir buscar tais objectivos. Existem outras maneiras - todas elas bem mais ACADÉMICAS, bem mais próximas do que um "irmão" de estudo devia ser. E é por desconhecerem isso que as praxes deviam ser banidas do contexto estudantil. Quem as faz não honra o conceito da mesma. É triste e vergonhoso!


3 comentários:
Eu por acaso não consigo acha minimamente normal o conceito das praxes, acho que sempre passou pela humilhação dos caloiros a um nível umas vezes mais outras vezes menos grave mas sempre dentro desse conceito de subjugar ou humilhar e depois outras vezes corre mesmo muito mal como foi este caso no meco! Obrigada pela tua visita e por seguires, adorei o teu comentário :)
Também te sigo!
Fico arrepiada... mortes desnecessárias, criadas pela falta de juízo.
Não podia concordar mais com as tuas palavras!! Totalmente de acordo!
Beijinho*
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