Acabei de ver o último episódio de um dos mais espectaculares documentários que vi nos últimos tempos. Chama-se Privilegiados Sem Abrigo (no original Filthy Rich And Homeless, BBC 3, ano 2007, não confundir com Famous, Rich and Homeless, BBC 1, 2009) e trata disso mesmo: colocar pessoas endinheiradas a viver nas ruas, por uns 10 dias, para conhecerem essa realidade e confrontar as suas ideias e convicções in loco.
Foi espectacular! Passou na Sic Notícias, no programa “Panorama BBC”. Pode ser que repitam, estejam atentos.
Sempre gostei de documentários que são, no fundo, um estudo e uma experiência social. Lembro-me que, também do Reino Unido vi um dos documentários mais brilhantes que já imaginei: o de acompanharem o crescimento de um indivíduo, desde os 7 anos de idade até a idade adulta avançada, sempre fazendo um “apanhado” filmado de 7 em 7 anos.
Este tipo de documentário vale por milhares de reflexões. Faz-nos pensar: e se fosse eu no lugar desta pessoa? Também nos faz reflectir sobre a vida privilegiada dos voluntários. Alguns não estão assim tão longe de terem vidas vazias e sem rumo como se pensa à primeira vista. Ter dinheiro faz toda a diferença, mas não resolve realmente nenhum conflito interior, não é verdade?
Nesta experiência, 5 indivíduos endinheirados aceitam ir viver para as ruas de Londres e conviver com a realidade dos sem abrigo. Eles são: Clementine Stewart, 21 anos, filha de um apresentador de televisão, Ravi Gehlot, 24 anos, Charles, 21 anos, agricultor e herdeiro da propriedade, Thomas, casa dos 20, herdeiro de um negócio de milhões e Darren, pai de dois filhos e self-made-man que vive de festas e é capaz de gastar 1000£ por noite em copos.
Foi fenomenal. Não consegui acompanhar todos os episódios nem perceber como estas pessoas conseguiram a sua fortuna para entender melhor as convicções que tinham. Mas simpatizei de imediato com Ravi e com Thomas. De início não sabia que Ravi era um dos voluntários, porque quando o vi estava a tomar banho num dos centros, agradecido por ter água e a dizer que fazia dois dias que não trocava de roupa interior. Achei Clementine a mais imatura do grupo e, curiosamente, aquela cuja fisionomia mais se adequava a um sem-abrigo, já que tinha um rosto redondo e avermelhado, daqueles que aparenta denunciar uma relação próxima com a garrafa! Mas a sua imaturidade é algo próprio da idade e julgo que esta é uma experiência que devia voltar a viver mais tarde na sua vida. Talvez depois da maternidade. Porém, com a sua juventude ela foi capaz de detectar de imediato que o espírito derrotista é uma das características que mais contribuem para a inércia dos indivíduos que se encontram naquela situação. Mas não conseguiu afastar-se dos desejos próprios da idade e só conseguia falar do quanto estava aborrecida por não ter nada que fazer. Acabou por marcar encontros com amigos para ir almoçar num restaurante. Ela ansiava pela diversão e pelo entretenimento.
Pouco vi da situação de Charles mas, pelo que percebi neste último episódio, é um rapaz às direitas que, como todos que já tiveram 21 anos, interroga-se se tem a vida nos trilhos ou se deve seguir outra direcção. Quando ele chega a casa assusta-me a frieza, repito, frieza com que é recebido pelos seus. Fica claro que não existe entre eles uma relação afectuosa. Acho que não se vê nem um abraço! E as pessoas não correm a ter com ele, ele é que se passeia pelas divisões da casa e vai cumprimentá-las. A última pessoa que cumprimenta é o pai, mas nem dá para perceber, porque não existe a emotividade que seria de esperar entre pai e filho. A conversa depressa descarrila para a discussão e muito por responsabilidade do pai, que tem ideias pré-concebidas e, claramente, não consegue relacionar-se com o filho. Pergunta-lhe se foi preso, presumindo que foi, se andou a roubar, presumindo que andou a roubar… Entendi de imediato que aquela família não era a ideal para o rapaz e, o que o motivou a fazer aquela experiência foi a necessidade de se afastar daquela opressão e frieza. Mais tarde o rapaz decidiu ficar a trabalhar na quinta, mas seis meses depois estava a pensar alistar-se no exército. E não é esse o derradeiro caminho de todos os rapazes que procuram uma saída para o tipo de vida que têm? Muitas vezes, se não quase todas, motivados pela incapacidade de conseguirem uma relação mais próxima com os progenitores. É uma fuga. Um escape. Mas tem de ser feito e espero que o rapaz tenha saído da quinta, para assim acabar por se afastar de uma energia negativa e ter mais hipóteses de ser bem sucedido individualmente, já que tem o tipo de pai que lhe atira à cara que lhe deve tudo e não sabe fazer nada!
Já Thomas parece vir de uma ambiente familiar completamente diferente. Quando toca à campainha da casa dos pais, os dois vêm acolhê-lo e abraçam-no. Também dizem que ele cheira mal (não toma banho há duas semanas) e está imundo, mas isso não os faz sequer hesitar em o abraçar. Levam-no para a cozinha para descobrir como foi a experiência do filho, sentem-no alterado, pressentem mudanças, preparam-lhe o banho e o pai acaba por dizer: “Ele vai precisar de muito amor e compreensão para lidar com aquilo que viveu”. Quando questionado se não está orgulhoso do filho, é mais pela expressão facial do que pelas palavras que fica comprovado o contrário. Estes pais devem ter sofrido com a escolha do filho! Mas aceitaram... aposto que não dormiram lá muito bem, imaginando-o a viver como sem-abrigo! É admirável terem apoiado o filho à mesma. Percebe-se que são bons pais.
Lá caiem por terra dois mitos que gostamos de alimentar: o primeiro a cair é achar-se que de famílias ricas não saem filhos bem-educados e sem problemas emocionais. Outro mito que cai por terra é achar que as famílias no campo são todas humildes e compreensivas como “Martha e Jonathan kent” das histórias do Super-homem, que se amam uns aos outros e educam seus filhos numa relação afectuosa de proximidade.
Partir de ideias pré-concebidas é sempre errado, quer estas sejam sobre os sobre os sem-abrigo ou sobre qualquer outro grupo de pessoas, incluindo ricos. Cada caso é um caso. Mas compreendo que é mais fácil assimilar as coisas mascarando as realidades com este tipo de generalizações.
É a vez de Darren regressar a casa. Outro que me pareceu ter uma existência fria e solitária. Daren é obeso e foi muitas vezes filmado sentado ao comprido. Desta vez não é diferente e filmam o seu testemunho enquanto está sentado no sofá, ao lado de duas crianças, seus filhos, que nem desviam o olhar do televisor enquanto ele fala. Na manhã seguinte, o testemunho volta a ser dado no sofá e um dos miúdos salta para um canto enquanto o pai fala sobre a experiência. Darren estica o braço para tocar no filho, que o repele instintivamente. O pouco que vi já me diz muito! Conheço aquela linguagem. Darren não consegue relacionar-se com os filhos, estes refutam estes gestos que não consideram verdadeiros e Darren tenta ocultar as suas mágoas no auto-proclamado sucesso (acho que fez dinheiro com a venda de bebidas online, o que não é assim um grande feito) e fazendo questão de ser uma presença constante em todas as festas a que conseguir ir, e mais algumas. DOS CINCO é, sem dúvida, aquele cuja realidade tem mais em comum com a realidade dos sem-abrigo: está insatisfeito com a sua vida pessoal, não consegue relacionar-se com os filhos como desejaria, é sedentário, é obeso, o sofá deve ser o local mais utilizado pela família, gosta imenso de beber em festas até ficar tocado e tenta obter gratificação pessoal nestas falsas felicidades. Darren não entendia porquê aquelas pessoas não deixam aquela vida e acusava-as de estarem naquela situação por lhes faltar iniciativa. Aceitou participar na experiência porque tinha a vida estagnada. Nada lhe acontecia. Só isto, já diz muito! Uma vez num centro de acolhimento, põe em causa o que ali fazem, dizendo que aquele lugar é “um palácio” para os sem abrigo, pois estes sentem-se bem em ali estar, logo, de lá não vão querer sair para endireitar a vida. Darren não consegue estabelecer um paralelo entre a falta de iniciativa para ganhar dinheiro destas pessoas, com a falta de iniciativa que ele sente para mudar a sua vida e deixar de ser um fanfarrão de festas. A proximidade entre os dois estilos de vida pareceu passar-lhe ao lado.
Já Ravi e Thomas foram dos primeiros a perceber que aquilo pode acontecer a qualquer um e foram, também, dos primeiros a tentar compreender as razões que conduzem àquela existência. Thomas ficou impressionado com um sem abrigo a quem logo chamou de amigo. Um indivíduo que falava línguas e era instruído. Uma vez de regresso a casa, tenta arranjar-lhe emprego. Mas Thomas deparou-se com uma situação que não previu: Não foi fácil arranjar emprego! De facto, não conseguiu. Em duas semanas não obteve nenhuma resposta positiva. Passadas 6 semanas, um mês e meio, continuava num marasmo. O que Thomas não compreendeu, foi que ele contactou o amigo e ficou de lhe arranjar emprego. O tempo estava a passar! Como é que o amigo ia compreender esta demora, se não como uma rejeição? Outra falsa esperança? Como Thomas é rico, quem está na rua não entende que dificuldades pode uma pessoa com dinheiro deparar-se para conseguir o que quer que seja. Certamente, para um tipo com conhecimentos e dinheiro, alguém devia abrir uma porta! Thomas descobriu que não é fácil conseguir um emprego. O que não compreendeu é que a demora criou falsas esperanças ao amigo cuja única incapacidade é mesmo a de lutar para melhorar a sua situação. Se alguém o fizesse por ele, talvez, talvez, algo mudasse. Mas não se pode dizer que se vai fazer e não avisar que vai demorar. Se 10 dias na rua pareceram uma vida para os voluntários, imaginem só o que 45 de espera significou para este sem-abrigo que recebeu uma réstia de esperança, ainda que não a deixasse vir à superfície. São esperanças que vão para baixo... é do pior que pode acontecer! Seis semanas corresponde a abandono e engano…
Thomas recebeu então um email do amigo a dizer que não queria mudar-se para aquela região e trabalhar como jardineiro. Também lhe disse que não estava seguro sobre a amizade com uma pessoa mais nova que ele. Thomas voltou a Londres para pôr a limpo as más impressões do email que recebeu e acabou a desistir de encontrar trabalho para o amigo. Thomas não percebeu que se propunha a um feito tremendo, nem o quanto isso cria expectativas em indivíduos que já tiveram todas as esperanças esmagadas, umas atrás das outras. Thomas interpretou o email do amigo com uma conotação mais negativa do que aquela que o amigo depois lhe confidenciou. Acredito que havia sinceridade nas palavras do amigo. Creio que a comodidade do regresso à normalidade deturpou a percepção de Thomas. Por vezes acha-se que os sem-abrigo estão errados por não aceitarem ajuda para sair daquela vida, mas não compreendem que não é tão simples como arranjar um trabalho que vai curar o espírito do sem-abrigo, que entretanto já arranjou escapes na bebida. Neste sentido, o sem-abrigo é muito mais realista. O amigo de Thomas disse-lhe que não gostava de viver em pequenas comunidades. É compreensível, pois numa grande cidade as pessoas tendem a não fazer julgamentos ou não querem saber do sem-abrigo. Isto dá-lhes uma espécie de dignidade, pois serem constantemente lembrados da sua situação, com gestos caridosos e discursos evangelistas é fazê-los sentirem-se uns pobres coitados. Isto é comum em comunidades mais fechadas. Claro que também trazem as suas vantagens, porque comunidades assim tentam aproximar-se do indivíduo, tentam ajudar, tentam mudar-lhe a vida ou então rejeitam-no cruelmente. Seja como for, são abordagens invasivas, que os incomoda e os fazem sentir um “projecto”, ao invés de uma pessoa cuja situação é respeitada. E poucos, por melhor intencionados que sejam, tal como Thomas, não vão conseguir compreender que o processo não acontece de um dia para o outro, segundo as normas consideradas normais para o indivíduo comum.
Sobre os sem-abrigo, é interessante ver o que cada um, grupo e sociedade, pensa a respeito.
Pessoalmente sempre convivi afastada da realidade dos sem-abrigo ou dos pobres que pedem esmola. Não é uma realidade que conheça realmente, mas acho que sempre tive uma perspectiva aberta a respeito desta e outras questões e sei que nunca fiz suposições. Outra coisa que também não sinto que tenha feito é descriminação. Embora saiba que existe sempre um pouco, seja com o que for. Quando jovem, costumava pensar nos sem-abrigo, à chuva e ao frio, debaixo de trovoada, principalmente a meio da celebração do Natal. Qualquer alegria proveniente de um festejo deixava-me assim a raiar a tristeza e a pensar nos menos afortunados, não sei porquê. Lembro-me de chorar! Mas quanto à descriminação, não trocava de passeio por ver um sem-abrigo caminhar na minha direcção. Acho que isso é até um pouco cruel. Também nunca me afastei deliberadamente, por um se aproximar. O mesmo acontecia com ciganos. Acho que não tem nada a ver! Uma vez porém, foi a excepção. Ainda não eram 7h da manhã e encontrava-me a passar numa avenida. Caminhava na estrada já que o passeio estava bloqueado pelos carros e subitamente avistei um indivíduo. Não estava ali mais ninguém nem havia movimento de trânsito. Passei por ele, mas distanciada, até porque ia mesmo mudar de direcção, só que o fiz antes de o ultrapassar, quando poderia tê-lo feito depois. Mas fiz bem em ter agido com alguma cautela. Não havia mais ninguém à vista e o indivíduo exibia um comportamento irrequieto. Depois de passar por ele percebi que tinha a mão enfiada dentro das calças. Só me faltava um exibicionista!
Estou mais velha e acredito que os receios aumentam com a idade e que ela diminui o estado de alerta e a capacidade de reacção em caso de imprevistos. E também faz aumentar uma falsa segurança, porque criamos rotinas e andamos por sítios que conhecemos desde sempre. É natural que sejamos mais corajosos quando mais jovens! Daí a idade das pessoas que aceitaram fazer esta experiência rondar a casa dos 20. Se um dia vier a mudar de passeio novamente, acho que é uma decisão que tem mais a ver com os instintos, do que com receios infundados pela aparência do indivíduo que se aproxima. Ou então não me apetece cruzar com alguém e é tão simples quanto isso! Já mudei de passeio por avistar um conhecido de outros tempos e ficar acanhada. Não deixa de ser descriminação, ou não? Mas nem tudo tem uma conotação temerosa, existem várias razões que motivam as acções das pessoas. Sou apologista da cautela, seja ela com indivíduos com aparência de sem-abrigos, fardas de autoridade ou a fatos de empresários. Nunca se sabe. Até mesmo crianças, já se ouviu falar de tudo. Mas, no geral, a aparência não é factor que me influencie por aí além.
Numa outra ocasião e para um projecto escolar, acompanhei acções sociais num bairro social pobre, constituído na sua maioria por famílias de etnia cigana. Agora que olho para trás, verifico que realmente, de minha parte, vejo as pessoas como pessoas e pouco mais do que isso. Talvez até seja prejudicial não ter algumas reservas motivadas por razões menos nobres, não sei... mas a verdade é que fui sozinha até aquele bairro social, era de noite, falei com as primeiras pessoas que encontrei notando que eram pouco receptivas a alguém exterior mas eu era tão natural, que acho que acabava por não encontrar resistência por ser genuína. Aí acompanhei uma aula de alfabetização, conversando com as raparigas e com a professora. Tirando o cheiro da falta de higiene, acho que nada me marcou mais, e pela negativa, do que perceber que aquelas mulheres não queriam estar ali. Sentiam-se forçadas a lá estar e os esforços da professora eram em vão. Elas só não se iam embora porque isso colocava em risco perderem o direito ao rendimento mínimo que sustentava cada elemento daquela família. Ao todo, uma boa quantia! E era isso que as motivava, nada mais. Eram pagas para ali estar. Uma das raparigas era apenas uma miúda com menos de 20 anos. Mas já era mãe. Não compreendia o que estava a fazer e não queria estar ali. Não sabia responder a perguntas simples e ria-se muito. Quando lhe perguntaram quais eram as suas ambições, nem conhecia a palavra. Refeita a pergunta sobre o seu “futuro”, respondeu “ter mais filhos e cuidar do homem”. E a verdade é que não se pode querer mudar uma coisinha na vida das pessoas e achar que isso altera as suas rotinas, ou a mentalidade cultural.
Foi interessante perceber como a comunidade INGLESA compreende a situação dos sem-abrigo. E também ver como funciona o sistema nesse sentido. Não entendi bem mas, percebi que nem tudo é um mar de rosas. Existem centros de acolhimento, onde uma cama obtida hoje não é garantida amanhã, e os hostels, onde os sem-abrigo podem permanecer por mais tempo ou tempo indefinido. Não entendi bem o funcionamento de um ou outro mas, num exemplo, Thomas pergunta a um funcionário se ele não pode ficar a dormir ali por não ter problemas com drogas ou álcool. Respondem-lhe que não tem direito por isso mesmo. E é mesmo caso para perguntar: então porquê se deve esperar que as pessoas desenvolvam estes problemas para lhes estender uma ajuda? É que dá mesmo que pensar! Compreendo que aquele lugar específico só quisesse receber os que estão mais fundo no poço, mas, ao fazê-lo, não existe aqui já algo errado? Descriminação na miséria! Huau! Até no universo dos sem-abrigo, se não fores miserável o suficiente, não recebes ajuda… a sociedade no seu melhor!
Considero que os portugueses são, no geral, um povo mais afortunado que os Americanos, por exemplo. Isto no sentido de termos estado, como sociedade, exposta a outras realidades diferentes das nossas, através de inúmeros documentários e noticiários que passam na televisão. A realidade de outros países distantes não nos é assim tão afastada, quanto poderia ser. Seja em Nova Iorque ou numa aldeia na Etiópia. Acabamos por ser expostos a praticamente tudo. E também acho que temos uma curiosidade natural que nos faz sentir vontade de conhecer outras realidades. Mas sei que, em algumas culturas, existe um círculo mais fechado em que o que vem do exterior é quase desconhecido. Até o atentado de 11 de Setembro de 2001, os Americanos eram assim como povo. Surgiram testemunhos na primeira pessoa na televisão a dizer que os noticiários na América só mostravam a realidade americana, assim como os jornais. Até parece uma ditadura! Que horror, que lavagem cerebral... Nem consegui imaginar viver assim pois em Portugal qualquer fonte de informação inclui um bem desenvolvido bloco de notícias internacionais. Podemos não lhes dar muita importância, porque são muitas e diversificadas, mas existem, acabamos por as encontrar e temos fácil acesso a elas! Ouvi alguns jovens americanos admitirem que, como povo, eram completamente alienados para a realidade de outros povos, noutros países. Isto faz com que estejam menos preparados para compreender diferenças. Não se pode saber tudo por um pouco de exposição, mas certamente que um indivíduo é mais completo como pessoa quando a viver com consciência de que existem várias outras realidades.
Quando a experiência de Privilegiados sem-abrigo terminou, dos cinco voluntários, Ravi, que foi confrontado com os seus problemas pessoais mais do que outra coisa, abriu um site com ofertas de emprego para os sem-abrigo. Thomas ocasionalmente visitava o centro de acolhimento onde ficou e nunca mais teve contacto com o amigo (não percebeu que é assim e não devia desistir). E mais não se sabe, porque pouco informação existe. Aliás, no universo da internet, é até de desconfiar que nem no site da BBC existam mais detalhes sobre este estudo social. Não existem imagens, ou vídeos, ou um texto mais desenvolvido sobre o projecto ou sobre as suas consequências. É como se todos os participantes quisessem resgatar o anonimato e a BBC não tenha interesse em os expor mais. É uma pena pelo que, se esta série passar novamente na nossa televisão, vejam-na. É verdadeira e despretensiosa, uma raridade hoje em dia.

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