segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Ignorância compra jornais

São os analfabetos que compram jornais.

Esta afirmação é, por si própria, uma contradição, mas não é para ser levada à letra.
Serve para ilustrar um ponto de vista.

Trabalhei numa editora e, neste universo, "como agarrar mais leitores" e "o que é que vende de momento" são questões diárias. Com a sombra da crise a pairar, as vendas a descer, os ordenados a diminuir e o receio de falir a bater à porta, muitas vezes não se percebia como "aquele tipo" de produto podia sobreviver. Mexe-se constantemente no conteúdo e na apresentação, mas a matéria é sempre igual. Como pode isto fidelizar o público? Afinal, quem é que compra vários números de uma revista que fala sempre do mesmo, mudando apenas as imagens? Ai! Todos!!

Percebi-o agora claramente. Grandes revistas tidas como de jornalismo sério, deixaram de existir. Porquê umas desaparecem e outras não? Ignorantemente, acha-se que a qualidade é um factor importante. Procura-se sempre aumentar a qualidade dos textos e dos conteúdos, acreditando que isso fará aumentar o consumo. Mas a verdade é que estas revistas são as primeiras a desaparecer e o que subsiste por aí são as que quase não mostram nenhum conteúdo.

Hoje tive essa comprovação através de um flashback (parecia o Dr. House, que sempre descobre a doença do paciente quando está a tratar de outra coisa não relaccionada). Estava a conversar com minha mãe sobre as suas férias. Ela partilhou uma casa de praia com a irmã por uns dias e diz-me o seguinte:
-"Todas as manhãs comprei o jornal, a tua tia não compra jornais mas preencheu os cupões do concurso".

E foi aí que dei conta que comprar jornais e revistas é um hábito! Meus pais têm esse hábito mas meus tios nunca tiveram. Meus tios são leitores por transferência, leitores que lêm o jornal alheio, mas não gastam dinheiro para os comprar. Uma das lembranças mais vividas que tenho é de receber as suas visitas em casa e destes se "atirarem" aos jornais e revistas para os consumir, com avidez. Porque não tinham o hábito dos comprar (embora os gostassem de ler, principalmente os desportivos). Porém meus pais, que são pessoas com poucos estudos, irão comprar jornais até o último dos seus dias. Porque sempre o fizeram, criaram esse hábito. Já não lhes sabe bem começar o dia sem ler as notícias nos jornais.

Cai assim por terra o mito de que o público que lê os jornais é maioritariamente constituído por pessoas mais instruídas. É exactamente o oposto. Quem eu percebo que comenta as notícias das revistas e dos jornais são as pessoas com menos instrução. Que são também quem eu vejo a comprar revistas e jornais, atraídos muitas vezes por um ou outro título ou uma ou outra capa.

Acabei por crescer rodeada de jornais e revistas que meus pais compravam pela manhã, mas não lhes apanhei este hábito. Ninguém mais na família tem esse hábito. As pessoas com quem trabalhava na editora também não eram consumidoras de jornais e revistas. Isto é interessante! E o leitor: compra todos os dias os jornais?

É claro que hoje em dia a informação pode ser consumida de muitas outras formas, nomeadamente, pela internet. Mas este tipo de consumo é relativamente novo e ainda nem atingiu o pico. A própria internet para consumo de todos e disponível em todos os lares é coisa relativamente recente. Dez anos apenas, já fazem muita diferença se formos a pensar o quanto não era assim tão comum todas as pessoas terem computadores em casa, quanto mais uma ligação à internet!

Os jornais e revistas "lutam" pela sobrevivência. Existem revistas cuja permanência no mercado são um mistério, porque são ocas de conteúdo e repetitivas. Mas agora compreendo que é assim que tem de ser. Por esse prisma, a revista na qual trabalhei nunca vai desaparecer. Trata-se de mostrar sempre o mesmo, mudando o visual. E é isso que vende. Pelo menos em papel. Outro tipo de conteúdos já obriga a outro tipo de meio. O "público" que gosta de um pouco mais de substância prefere ligar-se online a comprar o jornal. Será mesmo assim? Tirando excepções, acredito que um maior número de pessoas mais instruídas (esta noção é discutível) prefere a comodidade de um computador a tactear o papel de um jornal ou revista.

Quem compra então os jornais e revistas?
Os indivíduos menos literados!
Os que têm o hábito criado, os que acham mais prático folhear páginas de papel a carregar em botões ou mexer no rato do computador.  

A "ignorância", por assim dizer, é que compra os jornais.
Quanto mais "literado", maior é a preguiça para este hábito matutino e maior é a crise LOL!

(Nota: Ò Sócrates: já vistes no que resultou andar a distribuir diplomas para toda a gente, pá? Só fez foi aumentar a crise!)

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