domingo, 27 de novembro de 2011

Sangue «nobre» e a EDUCAÇÃO

O que é isto de «Sangue Nobre»?

O que significa,  na prática, pertencer a uma família quatrocentona? A uma família com dinheiro «velho»? Ser descendente de alguém com um título? O que é isso??

Conheci uma rapariga que tinha longa conversas sobre o facto de famílias com dinheiro terem uma postura diferente de estar e de isso fazer-se notar. Dizia ela que bastava-lhe observar os modos das pessoas para saber distinguir quem tinha educação dos que não tinham. Depois começa a enumerar uma série de exemplos que, a seu ver, lhe dizem que a pessoa não tem educação.

A forma como se pegam os talheres, a postura à mesa, deixar os cotovelos tocar no tampo da mesa, as palavras utilizadas... tudo coisas que confessou a irritarem bastante.
Fiquei a saber que aquela rapariga irritava-se bastante com muita coisa! Coisas que nem nos passam pela cabeça!

Mas eu pergunto: O QUE É TER BOA EDUCAÇÃO?

A mim ensinaram-me que demonstrar respeito pelos outros é ter educação. E nisso respeito as pessoas, com todas as suas diferenças e diferentes backgrounds. E não me irrito por isso! Ter determinados comportamentos à mesa parece-me mais secundário quando se trazem valores morais à baila!...

Esta rapariga insistia que eu nunca ia entender por não ter sido criada nesse ambiente. Até pode ser, admitia-o. Mas a minha definição de BOA EDUCAÇÃO tem mais variantes e isso é que quis fazer ver, sem sucesso. Segundo ela, a sua educação proveio das duas famílias que a criaram: a de sangue, pobre até à medula, e a de criação, abastada ou... que tinha sido abastada!

Contava muitos «podres» sobre a postura das pessoas abastadas que conheceu, retratando-as como sendo pessoas frias e falsas, a viver de aparências e que tudo fazem pelo dinheiro, sendo incapazes de se desfazerem dele nem sequer para ajudar a família mais próxima (ela). Mas ao mesmo tempo que dizia isto e contava que «teve de afastar-se» daquele meio, notava-lhe ressentimento e a convicção de que era mais bem formada e educada que todas as pessoas que a rodeavam.

No fundo, estava era revoltada com a sua condição diferente e comportava-se de modo a se afirmar e reintegrar-se, porque o cobiçava. Na verdade, parecia um «cãozinho» a abanar a cauda cada vez que se sabia na presença de alguém proveniente de uma família com tradição em dinheiro. A sua postura alterava-se de imediato. Queria logo estabelecer amizades e prestava favores a essas pessoas para as agradar. Fazia questão de informar a todos que aquela pessoa não era alguém comum, porque vinha de famílias com «bastante dinheiro» e chamava à atenção da pessoa a quem ela considerasse que não soube comportar-se com modos adequados perante a presença do/a endinheirado!

Fazia isto tudo, mas era preciso ter bons olhos para o perceber. Porque, à superfície, a tendência é nem reparar o quanto avaliava e censurava  o comportamento alheio. Qualquer um que a conhecesse facilmente se deixava levar por uma pretensa simpatia e um jeito falsamente distraído de estar. Mas o seu cérebro dificilmente deixava de julgar as pessoas e foi preciso tempo para conhecer a pessoa por detrás da «máscara» da amabilidade. Existiram algumas pistas: o criticismo, as lamurias com o dinheiro, o facto de estar sempre à espera que outros lhe paguem o café,  a forma subtil como se servia das refeições nos pratos dos outros... mas já lá vamos!

Uma vez chegou à empresa um novo colega, um senhor de 70 anos cuja rede de contactos pessoais e experiência no ramo eram suposto ser uma mais-valia para a empresa. Este senhor, mais que não seja por ser um senhor, era tratado com respeito. Mas no que respeita a resultados laborais, a coisa não havia meio de engrenar. Nada daquilo que se propunha fazer de facto acontecia. Tinha-se de esperar até o último minuto para se saber uma resposta sempre... negativa!

Esta minha colega de quem falei achava-o «um senhor», que se identificava logo «pelo porte e pelas maneiras» e via-se de imediato que tinha «boa educação». e os restantes é que não entendiam do quê ela estava a falar, porque não foram criados «naquele meio» de gente com dinheiro. Ela contava, toda empolgada, que sabia com quem ele se relacionava e que ele vinha de famílias com dinheiro, com tradição e que ele era um senhor educado, com «outro  nível» e não era da "terrinha saloia" como o patrão.

Porém, eu questionava se os modos daquele senhor eram assim tão de se louvar quanto se dizia. Primeiro que tudo, eu trabalhava num cubículo com outra colega, que o tinha indicado para o cargo. Sempre que ele chegava à empresa e ia falar com ela, não me dava os bons-dias. Falava com ela directo, ignorando a minha presença. Por vezes eu é que lhe dava os bons-dias, mas nem sempre ele retorquía. Quando ela não estava, ele soltava para as paredes: "A Maria está por aí?" e depois seguia bruto e seco: "A Maria não está?" - dirigindo-me então e somente assim a palavra. Por vezes deixava-me «pendurada» numa resposta que fosse mais elaborada sobre um assunto laboral. Aquilo, vejo agora, era desprezo e total desdém pela capacidade de trabalho dos outros!

Depois aconteceu um facto que me deixou ainda mais intrigada. Precisei do cartão de contacto de uma pessoa e ele foi buscar. Quando chegou perto de mim, atirou o cartão pelo ar, o cartão a rodopiar bate no meu queixo e cai ao meu colo. Fiquei a pensar: mas isto é que são boas maneiras??

Incomodada com a crescente confirmação de que o senhor ignorava a minha presença no cubículo e nem sequer dava os bons-dias, decidi experimentar uma nova abordagem. Comecei a falar-lhe com um tom de voz mais «afectado». Ou seja, calma e tranquila, como sempre, mas mais pausada e não é que notei uma diferença no seu comportamento?

Também ri ou apenas sorri aos comentários de mau gosto que fazia sobre o patrão, referindo-se a ele sempre com um adjectivo perjurativo. E distanciei-me. Deu resultado!

Se isto é «boa educação», acho que a dispenso do meu convívio! Se ser-se «de famílias com dinheiro e tradição» significa este(s) exemplo(s) que vi, prefiro não ver muitas mais vezes... O senhor acabou demitido acusado de traição e a minha colega, que não gosta de trabalhar e vive a dizer que não vê a hora de se reformar para «não fazer nada e ainda receber dinheiro» (ela tem 30 anos), continua com a sua postura e mantêm a sua noção do que diferencia as pessoas com «boa educação» daquelas que não passam de «saloias, sem educação ou formação».


Noutro contexto e altura na vida, conheci um rapaz que também vem de famílias "tradicionais". Este até tem uma ligação muuuito distante (mas uma ligação) com ascendência à monarquia. É um bom rapaz, ao que sei, mas logo se identifica uma certa "preguicite" e uma expectativa em fazer com que os outros o sirvam a si. Num almoço de grupo ele era o primeiro a provar a comida de todos... nos pratos dos outros! Não era de cerimónias: lançava-se a cada sobremesa e a tudo sem pedir licença mas, com graça, acabava por tirar a comida do prato do outro e a por na sua. Não ia logo à travessa, tirava do prato dos outros!

Deve existir aqui nos genes alguma réstia de «complexo de monarca», pois é sabido que, naqueles tempos que já lá vão (e bem idos) o Rei esperava ser servido, alimentado, vestido, despido, lavado, vangloriado e que lhe fossem feitas todas as vontadinhas... Será? É que esta minha colega, que de resto de sangue azul não tem nada, também elogiava a comida nos pratos alheios e acabava por ficar com parte das refeições de outras pessoas! Que «manha» é esta, Meu Deus? Será algo comum entre «famílias com  tradição»? É que, como não vim desse «meio», posso de facto não entender!

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