sábado, 27 de fevereiro de 2010

Genes no báu

Vou partilhar uma coisa que nunca cheguei a fazer, e lamento quase todos os dias. Mas primeiro, deixem-me situar no tempo, coisas que fazia sem que, na altura, existisse compreensão para tais gestos.


1- Gosto de investigar.
2- Gosto de aprofundar as coisas minunciosamente.
3- Gosto de desvendar a "chave" de um mistério.
4- Gosto de descobrir o presente pelo passado, com olhos no futuro...

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Não sei explicar mas, sempre que via caído um fio de cabelo meu, ainda mais com raiz, queria preservá-lo. Quando cortava as unhas e ficava com as lascas, olhava-as atentamente, observava-as e achava que devia guardar algumas. Quando cortava o dedo e via o sangue, pensava que aquilo tinha de ser aproveitado para alguma coisa... e decidi, antes que secasse, mergulhar a ponta do lápis na gota de sangue e escrever no diário! Achava estas coisas valiosas e quis guardá-las. Mas, ao mesmo tempo, sentia apreensão. Pelos outros e as atitudes que pudessem tomar. Sempre senti que, se outros lhes metessem as mãos, iam apelar à maldade e usá-las para bruxedos! Olhem que, não estava nada longe de acontecer...

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Aquilo eram pedaços de mim que, um dia, iam ter muito valor. Talvez, no futuro, as pudesse usar para comparar o "antes" e o "depois". Para descobrir o que mudara no organismo ao longo de tempo e, até, para recuperar algo perdido que ali ficasse preservado. Era assim que eu INTUIA estas coisas... tinham muito valor para mim, embora não soubesse especificar, sentia-o.

Talvez tenha sido influencia de alguns documentários que tenha visto, não sei... mas se de múmias, que são humanos que morreram há milénios, conseguem dizer que tipo de refeição tinham, o que faziam, problemas de saúde, etc... isto tudo é fascinante! Deve ter influenciado uma criança de 11, 12 anos.
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Apanhou-me desprevenida mas, quando dei por mim, estava totalmente dedicada ao estudo das minhas raizes. O nome desta actividade é Genealogia. Eu, que gostava de conversar com os mais velhos para entender os tempos passados, percebi que podia ir mais longe... e fui. Recuei até onde os arquivos deixaram-me ir. Em certas etapas, não muito longe e em momentos-chave... outros, por um exaustivo e persistente trabalho de leitura total dos livros, obtia um familiar que voltava a me colocar na trilha da ascendência... uma actividade muito interessante, que acabou por me conduzir até o DNA FAMILIAR.

Existem uns exames que se podem mandar fazer, que nos vão dizer a que tipo de grupo pertencemos. Mas só os homens, com o cromossoma XY podem revelar a ascendência paterna. (algo assim, na altura estudei isto bem mas a explicação cientifica escapa-me agora...). Ambiciosa, quis ir tão longe quanto possível. Os meu avô dar-me-ia o DNA do seu pai... e isso, para mim, seria um sonho! Mas... e arranjar uma forma de explicar-lhe, a um homem do início do século XX, que queria que me deixasse enfiar um cotonete na boca? Não consegui como...


Depois ele morreu e o meu arrependimento por não o ter feito foi devastador. Ao morrer, ele levou consigo essa preciosidade, o "código" da sua vida... quiça, a sua presença... Sobreviveu-lhe um irmão que, não fossem as semelhanças físicas, nada garantia que era filho do mesmo pai... (isso, nunca sabemos). Muito afastado mas que conheci durante o funeral, veio a falecer dois anos depois e, mais uma vez, "fustiguei-me" por não ter ido atrás do DNA... uma vez vi-o a cuspir para o passeio. Lembrei-me disso e arrependi-me tanto! Aquele cuspo precioso... Pensei em pedir aos familiares para me darem um fio de cabelo que tivesse ficado na escova. Pensei em pedir à funerária que me retirassem uma amostra do interior da boca... mas tudo isto, por enquanto, ainda parece absurdo a toda a gente... sinto que, no futuro, não será. Será o que todos vão querer fazer. Até vai perder a piada!


Meu avô foi incenerado... o irmão enterrado. Ainda guardo uma "esperança" - estúpida talvez, de, um dia, a sua existência ainda vir a contribuir para este legado. Mas nós aqui somos tão atrasados nas mentalidades... como vou solicitar algo vindo de um resto mortal sem parecer estranho? Estou à frente do tempo, para variar...
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Outra coisa que sou da opinião que devia ser transmitida de pai para filho é o historial médico. Ás vezes vejo as pessoas a tentar se "vitimizar" com doenças que, de todo, sabem ou não se correm na família. Há casos em que isso está provadíssimo mas, por exemplo, na minha, era miúda quando me vieram contar do cancro da mama. Pois não encontrei nada que indicasse que este fosse um problema familiar. A minha bisavó morreu com "algo no estômago" - isso sim, algo para reflectir, uma vez que a família tem queixas na área. De resto, até onde se pode dizer que uma pessoa é saudável, acho que posso ir por aí para descrever a "saúde" familiar. Tão ou mais importante se transforma o DNA! Se achas que tens bons genes, não gostarias de estudá-los? De descobri-los? De saber do que és feito? Eu sim!
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Fascinam-me estas questões. E é por isso que não sou capaz de deitar um exame médico fora. Quero, não os posso ver à frente mas, o que ali está é uma informação preciosa sobre um indivíduo... um dia, bem analizados, podem contar muita coisa! Tanta coisa... e assim, estou agora a tentar descobrir onde posso passar pelo scanner umas radiografias ao coração feitas por familiares. Acho que é informação que se deve preservar, para benefício das gerações futuras. Só depois posso ter o gesto "amigo do ambiente" (e dos bolsos de alguém) e dar as radiografias para que delas se extraia a prata.

Nisto tudo, a vontade de encher o "baú" genético, não tem avançado muito...

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