Existem TRÊS coisas na cultura social do povo brasileiro que a mim me surpreendem. São elas:
1-
O pequeno-almoço com todos sentados à mesa para enfardar um grande farnel
2-
A presença de uma babá por tudo o que é lado para criar os filhos
3- Até
o pobre tem uma empregada doméstica para todo o serviço
Calhei a ver um programa no canal Tv Globo com o título "
Que Marravilha!!!". Nele, um
chef de cozinha vai a casa de um casal celebridade para lhes fazer o prato favorito. Enquanto isso, ele faz perguntas ao casal, que começa a contar como se conheceram, o que acharam um do outro, como começaram a namorar, mostram os filhos e como são felizes. O programa quase sempre termina com um brinde e um beijo seguido de declarações de amor. Os três são antecedidos da degustação do prato e dos habituais elogios ao sabor: "
maravilha", "
delicioso", "
perfeito" etc...
O programa em si não é muito empolgante e é um tanto tedioso, longo demais e com uma fórmula que é sempre igual. Quem vê um vê praticamente todos. Só muda a cara das celebridades.Dizem que o povo adora «cuscar» a intimidade dos conhecidos, mas a mim não me atrai esperar tanto tempo para ver uma receita pelo que não apostaria nesse formato cá em Portugal, muito menos no factor "celebridade" como principal motivador de interesse para audiências neste tido de programa. A menos que o chef-apresentador fosse jovem, desenrascado e carismático. E isso, à sua maneira, só a Filipa Vacondeus conseguiu atingir, pela forma de se expressar e pelas coisas que dizia. Mas quem aparecesse a seu lado seria acessório.
Voltando ao programa, não é tanto o conteúdo culinário, enjoativamente e forçadamente romântico ou vouyerista que me incomodou. Sim, algumas coisas me incomodaram. E por elas decidi escrever este post para
reflectir um pouco na forma como um povo que partilha a mesma língua e tantas outras similariedades, consegue ser também tão
diferente.
Existem TRÊS coisas que acho algo
perturbadoras na forma como o brasileiro leva a sua vida social. Para mim algo conflictuosas ou surpreendentes comparativamente à forma como o português conduz a sua vida nas mesmas circunstâncias. São elas os
pequeno-almoços, as babás e as empregadas. Nossa! No brasil
toda a gente com dinheiro no bolso tem empregada. Uma para todo o serviço doméstico da casa e este costuma incluir cozinhar as refeições!
Em Portugal é preciso ser-se rico a quase e olha lá... Jamais um pobre tem empregada. Então?! A classe média raramente se dá a esses luxos - de pagar um ordenado a alguém porque o próprio não chegaria para isso. E geralmente a mulher nesta categoria tem de fazer tudo sozinha.
Todas as tarefas domésticas, todos os cozinhados, limpezas, pagamentos de contas, toda a criação dos filhos, e ainda o trabalho fora de casa. No brasil até empregada tem empregada, como ironiza a novela "Avenida Brasil".
Depois tem os
pequenos almoços de causar inveja mas também muita estranheza por cá. Uma mesa cheia com tudo em cima:
sucos, água, leite, café, bolo, pão, queijo, fiambre, fruta e devo ter esquecido muito mais mas não importa. O que interessa é que por cá o pequeno-almoço é algo que se faz a correr e de pé, ou a caminho do trabalho. Uns fazem-no dentro do carro, no meio do trânsito. Outros disfarçadamente dentro do autocarro, porque graças a deus ainda existe algum decoro na regra mais ao menos estabelecida que em lugares públicos fechados não são locais para se fazerem refeições.
E depois vêm
as babás... Aquelas criaturas fardadas, de uniforme monocolor, cabelinho atado, muito caladas, obedientes, submissas e serviçais. Mas o que é aquilo?? A sério... por cá alguém que ajudasse a educar os filhos de alguém exclusivamente teria muita mais intimidade com os pais. E poderia opinar, e ver-se livre daquelas roupas de diferenciação de classes e ser mais solta e realista. O que mais me faz espécie nestes três aspectos é mesmo este último. E agora vou explicar porquê comecei a abordar este tema pelo programa de culinária. A razão é simples: vi como
os pais parecem distantes e desapegados dos próprios filhos! Sei que trabalham muito, com períodos de pousio, mas mesmo que tenham tempo livre, muito dele continua a ser exclusivo e não totalmente partilhado com a prole. Por cá é tãããõoooo diferente!! E é essa a diferença. Por cá damos em doidos, pode até ser, mas quem cria os filhos, em princípio e por norma, são os pais. Ou no máximo
os pais dos pais. Para se entregar uma criança a um desconhecido é preciso reflectir muuuuuito. Não temos tanto esse costume, como no brasil têm com as babás que vivem em casa dos patrões e nos EUA/UK têm as
au-pairs.
No máximo temos
as creches, que são lugares onde muitas educadoras infantis em batas com padrões ou sem padrões vestidas por cima da roupa comum cuidam dos filhos de muitos, de forma igual e ao mesmo tempo tomando cada um pela sua individualidade. Ou mesmo amas, mas quase sempre, são os pais que têm de
ir levar e depois ir buscar os filhos ao local onde se cuida deles. Não existe o comodismo de ter tudo debaixo do teto.
(será por sermos mais pequenos geograficamente ou pela prática do rapto não parecer ser uma eventualidade realista?) Os pais correm para os filhos, brincam muito com eles, levam-nos às actividades extracurriculares, vão às reuniões de pais, vão ao médico com eles, alimentam-nos, vestem-nos, enfim. Todo o tempo livre que tiverem, geralmente é para os filhos. Terrível, bem sei, mas dá-se um jeito...
A tendência pode estar a inverter, não sei, mas existe uma diferença BRUTAL neste aspecto entre as duas culturas. Talvez por isso nós por cá sejamos "crianças" mais tempo e "adultos" mais tarde. Talvez por isso, lá é muito comum os adolescentes se iniciarem nas relações amorosas e sexuais nas tenras idades de 12 e 13 anos e por cá ainda as estatísticas estejam na maioria dos casos muuuuuito longe desses assustadores números. Decerto vão criar crianças que viram adultas mais cedo, logo experimentam tudo mais cedo, pois o desapego tende a que isso aconteça. Por outro lado, tornam-se independentes mais rapidamente.
Mas que vi eu neste "Marravilha!!" que me afligiu? Vi uma família de dois artistas de TV com uma filha de uns 9 anos de idade e outra com uma criança de um ano e meio. No programa existe sempre uma "pontinha" para os filhos integrarem a peça, de modo a mostrar a "família feliz". E sendo-se "família" com filhos, há que mostrá-los, certo?

Então entra esta criança de uns 9 anos em cena e começam as perguntas da praxe. Ficamos a saber, nós espectadores, que a criança gosta de cozinha. E costuma cozinhar. Que é ela que aos fins-de-semana prepara o pequeno-almoço aos pais. (trabalho infantil gente! - brincadeirinha). Quando o
chef pergunta à menina como ela costuma preparar uma certa coisa, a mãe corta a miúda e fala por cima, coisa aliás, que fez durante o programa inteiro a toda a gente, e faz questão de ser ela mesma a explicar como é que a filha lhe fazia a comida. Inclusive acrescenta que ela ia passar a cozinhar, ou algo assim. Fiquei perplexa. A miúda com 9 anos e já lhe estavam a querer atirar para cima a responsabilidade de cozinhar regularmente... achei mau. Intuí qualquer coisa errada ali.
Sou a favor das crianças começarem cedo a tomar responsabilidades pois por cá isso demora a acontecer. Mas a forma como aquilo ficou no ar tudo foi algo estranha... Soou um pouco a aproveitamento e exploração. Até a «empurrão». A mãe a falar da filha a cozinhar como se, perdoem-me, pudesse dispensar a empregada e economizar uns trocos. Mas nem foi isso que mais me afligiu. O mais aflitivo foi mesmo ver a senhora a falar por cima de toda a gente. Não deixava quase nunca ninguém continuar o raciocínio. Ela falava imenso por ela mesma e pelos outros todos também. Interrompeu a filha, o marido e até o chef. Ela cortava a palavra a todos. Claro, na cozinha ela não sabia fazer nada. Mas sabia mantar muito bem. Achei aquilo de uma certa má educação e um mau exemplo para passar na televisão nacional/internacional. Porque a ideia com que se fica é talvez contrária da que se deseja passar. Ali ela "vestia as calças", em todos os sentidos.

Depois chegou a vez de outras celebridades de TV serem "agraciados" com um petisco do conhecido
chef. Decidem para criar clima, tomar a refeição no terraço, trocar as juras de amor da praxe e depois o pai diz para as câmaras que quer mostrar a sua razão de viver ou algo assim - e estica os braços para o lado. Uma babá de uniforme rosa estilizado, com o cabelo apanhado num rabo-de-cavalo, avança uns passos e entrega um bebé de um ano e pouco às mãos do pai. JURO que a impressão que tive foi que aquele bebé ficou apenas 10 segundos ali a ser «mimado» pelos progenitores que rapidamente se cansaram e por isso foi prontamente e pouco emotivamente entregue de volta aos braços da babá, com um "
leve daqui" - ou uma expressão semelhante, voltando a concentrar suas atenções neles mesmos e nos garfos que traziam a comida do prato até à boca.
Existem GIGANTESCAS diferenças sociais na forma como os pais encaram o modo como têm de educar os filhos. Tanto cá, como lá, como na china e por este mundo fora. Pode até ser que nenhuma esteja perfeita, a nossa não é também decerto devido ao desgaste, porque sobrecarrega-se muito os pais, na generalidade. Mas entre os pais e um desconhecido, acho que um pai prefere ser ele a tomar em mãos a educação dos filhos, a criação, a troca de fraldas, a alimentação, a brincadeira...
No brasil tudo parece acontecer mais ao ritmo da disponibilidade e paciência dos progenitores. Se por cá fossemos aguardar por paciência... Esta tem de existir e pronto! Basta ler, a título de exemplo, uma crónica publicada na revista de Domingo do jornal Correio da Manhã, onde um pai de quatro conta como é o quotidiano dele e da esposa que trabalha como enfermeira desde o acordar até o adormecer, com todas as responsabilidades da escola, das actividades, das atenções que os miúdos requerem, etc... Imaginem isto tudo nas mãos de babás! E é isto um pouco que acontece por terras do lado de lá. Aquelas celebridades pegaram na criança, não sei, de forma pouco afectiva. As palavras que evocavam afecto foram pronunciadas. Mas a linguagem não verbal parecia dizer outra coisa. Devolvem a criança como um saco de batatas de volta aos braços da ama, concentrando-se novamente na comida em frente de seus olhosÉ muuuuito diferente. E melhor não sei explicar, mas que é, é. E muito. Não digo que tudo é pior nem tudo é melhor, certamente um meio-termo seria talvez o ideal. Mas assustou-me a frieza.
, como canais da Globo