Noutro dia disseram-me algo que me fez reflectir. Disseram:
-"Já não existem amigos. Já não se fazem amizades como antes".
Pensei muito nisto. Amigos, é isso que todos precisamos e queremos. É isso que faz com que muitos encarem terceiros como alvos a abater, porque acham que lhes rivalizam. É como se a amizade não pudesse ser partilhada e devesse ser exclusiva. Vi isso acontecer à minha volta umas tantas vezes.
No colégio:
Dava-me com uma colega que era popular, a Fátima. A nossa relacção evoluiu naturalmente ao ponto de andarmos muitas vezes juntas, a combinar coisas ou em conversa. Mas ela era ambiciosa e queria conhecer o que desconhecia. Tinha pouca cultura geral, desconhecia muita coisa, mas era muito boa a relaccionar-se com pessoas e a cair-lhes no goto. Para si, isso era uma arte. Nem sempre era genuína (representava muito) mas era autêntica porque, o seu carácter era mesmo esse: ela era como plasticina: aquilo que a outra pessoa precisasse, era o que ela se transformava para essa pessoa. Vinha outra, ela "transformava-se" noutra pessoa... "People pleaser", mas sabendo cobrar... entendem?
Entretanto chegou uma terceira pessoa, a Raquel, que, aos poucos e poucos, e com muita simpatia, foi introduzindo-se entre nós e criando uma separação. Convidava a Fátima a sair para conhecer lugares e pessoas diferentes. Tinha carro, o que era um atractivo enorme para a outra colega. As duas começaram a sair amíude. Raquel não deixava por menos: tentou conquistar o afecto da outra, oferecendo-lhe idas a concertos, passeios a cidades periféricas, diversão nocturna, muita brincadeira... nisto tudo, ambém fez por nos afastar. Intencionalmente, quero dizer.
Passou-me ao lado. Como gosto das pessoas em geral e todos temos defeitos, não me apercebi das suas intenções ou se percebi, não dei importância. A decisão é sempre da pessoa, não da influência de terceiros -´pensei, ingenuamente crédula.
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Com o tempo, quase deixei de conversar com a Fátima e os anos foram passando... Os laços entre a Raquel e a Fátima estreitaram-se, uma apresentou universos cativantes à outra... mas, no fundo, e hoje vejo isso claramente, (na altura depois também), tratou-se de uma acção comercial. Nada ali foi dado sem segundas intenções. Raquel "ofereceu" uma vida interessante mas em troca exigiu uma amizade. Claro que, após levar-se uma pessoa de carro daqui para ali, quando esta pede um favor, espera que este seja atendido. E assim começou uma amizade. (será que todas começam assim? Talvez...).
.Dois anos depois, um "grupo" estava formado. Um trio de amigas (eu não era o terceiro elemento) que andava quase sempre junto. Aí, quis o destino que eu e Fátima voltassemos a nos aproximar. Fizemos uma viagem juntas e, com isso, ela ficou a conhecer-me um pouco melhor, pois, o mal de pessoas reservadas como eu, é que os outros inventam as histórias que quiserem a respeito delas, que depressa ouvidos alheios anseiam por acreditar.
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Um belo dia, estávamos as duas a relembrar algumas aventuras, quando surge Raquel, com ar de poucos amigos, autoritária como costume e algo rude, a exigir que Fátima fosse com ela porque tinha algo

particular a lhe dizer. A Fátima recusou-se e a outra insistiu, mas acabou por sair zangada. Nos seus olhos, quando se cruzaram com os meus, vi algo que me é familiar... inveja e raiva. É então que Fátima desabafa: "
Estou farta, amiga! A Raquel anda sempre atrás de mim! Pensa que é minha mãe para me dar ordens! Agora tinha que ir com ela só porque ela queria, não! Estou cansada! Desde que cheguei que ela tem estado a agir de forma possessiva, não posso falar com ninguém, não posso combinar coisas com amigos que ela vem cobrar-me atenção! Não pode ser assim, tem de aprender! A bem ou a mal." - Eu, desconhecia a situação mas não demorei a entendê-la. Já tinha visto aquela "fome" de atenção dois anos antes. E tinha voltado a vê-la naquele olhar cheio de ciúmes e ódio. Eu, que nunca lhe fiz mal algum, nunca nenhuma palavra mal itencionada lhe dirigi ou sequer pronunciei a seu respeito... mas para este tipo de pessoas, isso não interessa.
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O terceiro elemento deste trio de amigas, a Marina, era uma pessoa de quem Fátima gostava muito e nutria admiração pela sua forma de estar. Perante este factor, Raquel não teve outro remédio senão acolher Marina também como sua amiga. Mas penso que isso nunca lhe agradou. Foi mais uma estratégia para não perder a amizade de Fátima. Como diz a expressão: se não a podes derrubar, junta-te a eles... e assim, Raquel permitiu "dividir" a amizade com alguém. Mas foi falsa o tempo todo, pois dizia-se amiga de Marina, mas não cessava de a criticar e, depois, atormentar. A Marina fazia mais o meu estilo... na sua, tranquila, só que não engolia desaforos! E eu engolia-os todos, tranquilamente... isso não assusta tanto as pessoas quanto ter de lidar com alguém que responde a provocações.
.Um belo dia também a Marina me confessou que não sentia mais amizade por Raquel e que esta nunca foi verdadeiramente sua amiga. Por mais que aquela confissão me chocasse, sabia que a Marina tinha razão e, mesmo sentindo um aperto no coração por assim ser, não deixei de admirá-la, e ao seu discernimento claro. Ela tinha razão: dali nunca ia receber respeito e sem isso, existe amizade? Não me parece.
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Uma vez Raquel disse-me que não era minha amiga e que não gostou de mim logo de início, mas que me tolerava porque eu era amiga da outra... nem nessa altura lhe levei a mal. Mas devia, não é mesmo? Até a ela, tratei com amizade até mesmo depois de me dizer isto... não tive o discernimento claro da outra!
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A Raquel era mesmo uma FDP... disfarçada! Ela fazia chantagem emocional com as pessoas. Primeiro, atraia-as com as suas ofertas apelativas. Depois, contava-lhes a vida triste que levou, coitada, tinha problemas com os pais (quem não tem) e sentia-se sozinha no continente (vinha das ilhas), sem muitos amigos e queria fazer alguns... Era uma pessoa muito agressiva que, amíude, maltratava os outros. Algumas vezes era chamada à atenção e aí, desculpava-se muito, ás vezes a voz soluçava e ia às lágrimas, dizendo que não tinha intenção... mas isso, com a Marina, resultou somente até um certo ponto. Depois nenhum "teatrinho" da Raquel surtiu mais efeito. É admirável mesmo...
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Fui quem teve menos sorte em toda esta experiência. A amizade com a outra, gradualmente, foi desaparecendo. Numa determinada altura, comecei a sentir algo estranho no ar. Como se algo se passasse e te diz respeito, mas ninguém te diz nada... quantos de nós não sabe o que isso é? Mas o pior, aquilo pelo que me sinto mais agredida, é que, da viagem que fiz com a Fátima, nasceu uma amizade com outra rapariga, a Patrícia, que veio visitar-nos.

Logo aí estranhei muito o empenho da Raquel em a conhecer. Antes mesmo de a ver, já lhe estava a dar toda a amizade. Depois a Patrícia chegou, a Raquel foi muito, muito simpática com ela e, não sei como, eu comecei a sair mal vista... percebi aquele olhar INVEJOSO de Raquel outra vez em cima de mim. Chegou a dizer à Patrícia: "
Mas o que é vocês vêm nela? Ela não é nada de especial!". Renovou a sua implicância comigo e, quando Patrícia veio passar uns dias em minha casa, Raquel, que mal a conhecia, telefonava-lhe todas as noites! Não me ligou nenhuma vez, pois, mal ou bem, conhecia-me há 4 anos. Nem a Fátima ligou à Patrícia mais que uma ou duas vezes. Mas Raquel, assim que saía do trabalho, ligava à Patrícia e, a primeira coisa que perguntava era se eu estava a conseguir fazer com que ela se divertisse. Depois perguntava-lhe se já não estava na hora de regressar, que devia, que ela ia organizar um jantar especial... Agora que penso nisso... que
doentio! Espero que já se tenham separado, e que a possessividade de Raquel não mais passe impune!
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A implicância e maldade de Raquel custou-me outra amizade. Um ano depois, Patrícia voltou a visitar-me e Raquel mostrou-se muito surpresa e incomodada com o facto. Telefonou a Patrícia de imediato, a aliciá-la com um jantar íntimo em sua casa. Combinou uma hora e um local para a ir buscar e assim, quando se aproximou a hora, eu e Patrícia fomos ao local combinado. Quando Raquel me viu, o queixo caiu ao chão. Ficou com aquela boca aberta tempo suficiente para eu, finalmente, entender claramente o que tinha á minha frente. Murmurou algo para o namorado por de cima do tejadilho do novo automóvel e sorriu, falsamente, dizendo:
-
Carolina! O que é que estás aqui a fazer com a Patrícia?? - e nisto, eu SOUBE. Entendi logo que não era bem vinda. Raquel estava aflita: receava que Patrícia acabasse por me convid

ar para jantar e era óbvio que ela não o queria. Eu teria adorado conviver um pouco, mas diante da falsidade que encontrei, só quis afastar-me. Só queria ir embora dali. Fiquei contente por ver Raquel. Soube que estava desempregada e lamentei por ela. Sou tão parva! Estava a receber subsídio, andava feliz! No instante em que percebi a expressão de nojo da Raquel, um medo assolou-me o pensamento: ia perder o contacto com Patrícia. Sentia que havia algo no ar. Algo muito negativo, que ninguém falava, mas me dizia respeito. Achei estranho colegas meus não mais responderem a
emails ou a contactos telefónicos. E, quando atendiam, falavam como se algo os incomodasse. Assim sendo, deixei de lhes ligar e eles nunca mostraram se preocupar com isso.
Patrícia nunca mais entrou em contacto comigo. Não respondeu aos meus emails. Quando estava longe, estava longe... mas sabê-la a viver na mesma cidade que eu, saber que ia apanhar um avião de regresso e não se despedir de mim... custou. Saber que voltaria para o ano, custou.
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Malditas sejam as Raqueis da vida! Eu também tenho culpa, claro, com este meu feitio calado, que aguenta surras de pé... um coração bondoso e ar de durona.... as pessoas limitam-se a lançar boatos e pronto: cola logo. Se eu disser "olá" na rua até parece que disse "merda", tal é a predisposição das pessoas para encontrarem algo em ti que possa confirmar esses boatos.
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Não sei se acredito em amizades. No emprego chegou uma colega nova, que veio substituir uma outra que, quando lá cheguei, foi das que melhor me tratou. Talvez por isso, tratei muito bem esta nova colega logo de início. Devo ter sido a única porque as restantes, pelas costas, gostavam de tirar uma lasquinha... e tinham razões para isso porque a nova colega vestia-se de forma provocante e exagerada na maquilhagem e nos acessórios. Andava sempre com óculos escuros na cabeça, uma série de pulseiras barulhentas nos braços, todos os acessórios que usava eram exagerados e cheios de metálicos dourados. Parecia uma figura alegórica de um carnaval dos anos 80. Completamente fora de moda, mas a achar-se muito "in". A pior impressão que me passou foi o flirt. A voz que usava para falar com as pessoas era num tom adulterado. Cheia de "mel", voz de criança, quase, cheia de risinhos e um tom abaixo do normal. Este tipo de pessoa não me suscita muita confiança, tenho de confessar. Mas como não acredito no julgamento pela aparência ou primeiras impressões, nada disso influenciou o meu trato com ela.
.Enquanto veio-se a perceber que ela gostava muito de falar de si própria, relatando com contentamento o tempo que passava a maquilhar-se no espelho do carro e a mostrar as muitas fotografias que tinha de si própria, o facto é que, esta sua forma de ser aliada à jovem idade, caiu no goto de todos os colegas homens, bem depressa. Sentindo-se

mais segura, a vozinha fina começou a dar lugar a uma voz arrogante, prepotente e agressiva. A verdadeira Rita estava a surgir! E então, eu, que sempre a tratei bem, comecei a receber umas agressões verbais gratuitas, vindas do nada. Enquanto que outras colegas lá lhe mostraram que tinham unhas para arranhar. A verdade é que mais de um ano se passou e só esta semana a sua atitude ultrapassou a minha paciência. Por algo que nada tinha a ver comigo, veio fazer cobranças aos gritos e verbalmente agressiva. Mas, o pior era quando se punha a fazer "grunhidos" cada vez que eu dizia algo pessoal, ou sobre o meu trabalho. Era ouvi-la a fazer "Hums! Hás! Suspiros, ai, ais!" - que grande fdp! Há um limite, e o meu ela conseguiu atingir num destes dias. Chegou a criticar a minha forma de trabalhar, sem sequer ter visto o que eu fazia! Criticou por "procuração", limitando-se a repetir, palavra por palavra, as agressões que um outro colega (com quem ela andou a flirtar durante meses e agora já levou para a cama) injustamente me fazia. Outro que testou a minha paciência até o limite... que chegou à duas semanas atrás.
. .O que se passa com as pessoas e a amizade que são capazes de dar a alguém? Já vi que sendo como sou, não vou conseguir nenhuma... Mas se desatar a agredir e a responder torto às pessoas, recebo respeito e, por consequência, devem achar-me mais interessante e querem conhecer-me melhor, ou travar uma amizade. Em suma: não podes ser uma boa pessoa. Não te deixam! Se és, és fustigado...
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Se não tiveres algo que elas desejam para "troca", também não te acham interessante.
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Provavelmente, as amizades sempre foram assim. Nós é que aprendemos que se passa o contrário. Mas, em tudo isto, uma coisa me chateia: é que exista competição! Ñão entendo porquê algumas pessoas, como esta rapariga Rita, descrimina amizades. O que a faz escolher umas e não todas? Quer dizer: uma pessoa que chegou ali "sedenta" por atenção... que se contentaria com umas parcas amizades... A sua natureze é mesmo essa: algumas porque, muitas mais, não lhe interessam e viram "alvos" de agressão. E é assim por toda a parte, mal me engane.