Por estes dias tenho visto Humberto Barbosa em entrevistas na televisão. O especialista em nutrição tem uma forma particular de focar a questão monetária em torno deste tipo de
intervenções. Disse ele numa ocasião, que uma consulta de lipoaspiração não invasiva era muito barata. Quando questionado de que valor estava a falar, atira para o ar a singela quantia de 1500 euros, como se de trocos se tratassem. Noutra ocasião mais recente, quando questionado novamente sobre os valores praticados por este tipo de consultas médico/estéticas, o nutricionista responde algo do tipo: "É muito barato porque as pessoas vêm às consultas para aprenderem a poupar dinheiro. Para aprenderem a economizar no supermercado. E poupa-se muito dinheiro".Isto é tudo muito interessante. Claro está, decerto que muitos destes comentários são uma posição de defesa. Certamente não acredito que uma pessoa com apenas 1500 euros, consiga fazer uma liposaspiração com a técnica mais recente e menos evasiva que se conhece até o momento. Ainda noutro dia numa conversa de café, uma amiga referiu que queria levantar os seios, mas que o mínimo que lhe cobram são 5000 euros. Ora, se o que tem mais procura é mais barato, como também o disse o referido nutricionista, este valor já está lá no alto, bem longe dos "míseros" 1500 euros.
Temos que ver que o salário mínimo nacional ronda os 550 euros. Portanto, estamos a falar dum mínimo de 3 vezes esse valor. Mas o certo é contar com o salário de 1 ano para uma intervenção destas. Claro que 1500 euros é "barato" para quem tem outras posses. Ou para a intervenção em si, os custos, a ciência envolvida. Mas não se pode dizer que seja barata para as carteiras dos portugueses.
Tenho o maior fascínio, sempre tive, pela ciência aliada à medicina e acompanhava os avanços que se iam fazendo na área, pelas revistas, ao longo dos anos. Admirava estes feitos estrangeiros, imaginando que, um dia, dali a uns anos, estes não seriam procedimentos apenas disponíveis no Reino Unido ou nos EUA. Um dia, chegariam a Portugal. Pois chegaram. Ainda bem. Nada tenho contra, pelo contrário. Mas ainda continuam um pouco fora do alcance da maioria. Claro que, como insinua Humberto Barbosa, tudo é uma questão de vontade e mentalidade.

Mas convenhamos: somos um país onde se come bem. Onde se aprendeu, desde pequenino, a comer muito. Quem de nós não estava proibido de se levantar da mesa até acabar tudo o que estava no prato? E ainda punham mais puré, mais arroz, mais massa, para «acabar e não sobrar»? As papas Cerelak, o leite oferta nas escolas... uma geração pós 74 viu a sua educação alimentar alterada bruscamente, quando comparada à anterior. Os nossos hábitos alimentares estão errados sim, pelo excesso. Comemos muitos doces, ingerimos muitas calorias. Não fazemos nenhum exercício. Isto não é novidade para ninguém.
Mas quem já vive com pouco no bolso sabe-o melhor que ninguém. Pois uma ida ao supermercado já inclui essa "visão" de "poupança" que os clientes de Humberto Barbosa vão adquirir à(s) sua(s) clínica(s). Quem tem pouco já faz dieta. Não compra chocolates, bolos, bolachas calóricas, mas também não traz as de dieta, com mais nutrientes, porque pesam na carteira mais que as outras, singelas, baratas... Há noite come-se uma sopa, ao almoço metade do peito de um frango, não se bebem bebidas alcóolicas nem refrigerantes, só água... e por aí adiante. Mas também estes, os que têm muito pouco, já sofrem o suficiente com a miséria e querem, muitas vezes, ganhar um mimo: umas cervejas, uns sumos de garrafa, umas batatas fritas de pacote... cozinhar também sai caro! Na conta do gás e da água... o Macdonald´s está ali ao lado, com um hamburguer prontinho, por apenas 1 euro...

Actualmente é preciso ganhar muito bom dinheiro para aprender... a ter hábitos de pobre! Mas quem tiver dúvidas quanto à forma mais adequada de tratar o seu corpo, a sua alimentação, basta tirar o exemplo de duas gerações atrás. Antes de Abril de 74, muito antes, no tempo da miséria, das vacas magras, esqueléticas mesmo, para a maioria...
Nunca ei de esquecer de ouvir a minha mãe falar o quanto a sua infância foi privada de coisas boas. Na alimentação em particular. Numa ocasião tive oportunidade de falar com o seu pai que me contou, com visivel satisfação, o quanto a sua filha teve sorte, por ter podido crescer alimentada com papas de farinha! Portanto, cada geração acha que os seus filhos chegaram num momento mais abençoado... e com razão.

Se um dia quiser seguir à risca uma dieta equilibrada, juntamente com um estilo de vida saudável, não tenho de fugir muito dos hábitos da geração dos meus avós. Salvo momentos de excepções (festas, convívios e também hábitos sociais), o modo de vida desta geração pautava-se pelo muito trabalho, com muito esforço físico, caminhadas ou deslocações longas por bicicleta. Horários fixos para a alimentação. Pequeno almoço reforçado, para começar o dia com energia. Marmita para o almoço. Verduras, legumes... jantar ás 18 horas: um prato de sopa. E fruta, muita fruta colhida da árvore, para o lanche, para a sobremesa...

Os chouriços do Cozido à Portuguesa e o copo de vinho às refeições ou na sopa de pão (afinal, agora diz-se que faz bem ao coração - eles lá o sabiam...) foram a maior "ameaça" ao colesterol desta geração. Doces altamente calóricos? Nah! Venham as filhoses de abóbora no Natal!






